O BRASIL NOS ESCRITOS DE DARCY RIBEIRO

 

Haydée Ribeiro Coelho - UFMG

 

 

Nos meados da década de 90, Darcy Ribeiro, juntamente com Carlos de Araújo Moreira Neto, organiza A fundação do Brasil (1992) e publica O povo brasileiro (1995).

Nesse estudo, procuro mostrar, de forma sucinta, como esses livros apresentam contribuições para a reflexão sobre o Brasil. Sob essa perspectiva, é possível depreender algumas questões teóricas como: a miscigenação, a etnia, as relações de classe, de poder e a idéia de nação. O estudo desses aspectos acha-se relacionado ao papel do intelectual e demanda também uma remissão a outros textos do autor tanto antropológicos quanto literários.

 

1. Na trança dos textos, o traçado do Brasil

No texto introdutório de A fundação do Brasil, Darcy Ribeiro mostra que, antes de sermos descobertos, nosso destino de colonizados já estaria traçado em duas bulas: a Bula Romanus Pontifex, de 1454 e a Bula Inter Cetera, de 1493. Essas seriam “instrumentos constitutivos da civilização americana”.[1] Dando prosseguimento à sua exposição, revisita vários textos que constroem a América e o Brasil como realizações das utopias européias. Os textos Mundus Novus, de Américo Vespúcio (1503) e Notícias Antendentes, curiosas e necessárias das cousas do Brasil (1663) (que antecede a Crônica de Simão de Vasconcelos) exemplificam como foram construídas respectivamente as visões americana e edênica sobre nós.

A invenção do Brasil através dos olhares dos cronistas vai sendo resgatada pelo autor que vê no texto de Vespúcio: “a primeira boa iconografia com que contamos”.[2] Reportando-se aos índios, refere-se aos textos de Jean de Léry, André Thevet, Yves d’Eveux e Claude d’Abbeville dentre vários outros. Sob a perspectiva de Darcy Ribeiro, dois projetos anti-utópicos se opõem na fundação do Brasil: o projeto religioso que procura criar uma “república pia” e o projeto mercantil que busca usar os índios “como força de trabalho para produzir mercadorias”.

No estudo sobre os brasileiros, Darcy passa por questões que serão focalizadas por ele em O povo brasileiro: a mestiçagem, o cunhadismo, as matrizes étnicas (os índios, os negros, os lusos). Os territórios e os espaços, que compuseram a “empresa Brasil”, são revisitados pelo autor através de trechos, de diários, de cartas, de documentos, de livros de memórias.

Recortando diversos textos, o autor vai em busca da fundação do Brasil, da tradição letrada que nos constituiu. Se fundar[3] pode ser entendido como um conjunto de trabalhos e obras destinados a assegurar à base a estabilidade de uma construção, a fundação do Brasil, sob a perspectiva utópica, cria imaginários sobre nós e, nesse sentido, passamos a existir como construção simbólica.

Confrontando a introdução do livro e seu desenvolvimento, percebe-se que A fundação do Brasil segue mais ou menos os itens nela abordados. Textos relativos aos olhares estrangeiros sobre o Brasil compõem a seleção feita por Darcy e Carlos Araújo. Alguns dos títulos dos capítulos vão acenando para os olhares múltiplos dos viajantes, compreendendo a visão americana, a visão francesa, a visão edênica, etc. Os textos históricos são comentados e organizados de tal forma que o leitor não só dispõe do olhar do estrangeiro sobre os índios como também dos retratos desses sobre o civilizador.

Se em A fundação do Brasil, os dois organizadores destacam as fontes históricas; em O povo brasileiro, Darcy Ribeiro tem como objetivo explicar o Brasil através de uma teoria da cultura.

O termo “O povo”, contido no título, causa estranheza aos teóricos contemporâneos, questionadores da idéia de totalidade. Além disso, o signo “povo” acena para uma massa indiferenciada. Essa estranheza do leitor crítico contemporâneo não é menor quando ele se depara com o termo “matrizes étnicas” utilizado para explicar a formação brasileira. E o que dizer da mestiçagem?

Renato Ortiz, ao tratar da mestiçagem e do nacional, evidencia que o mito das três raças “encobre os conflitos raciais como possibilita a todos de se reconhecerem como nacionais”.[4]

Ora, é interessante refletir sobre essa questão, na medida em que, na análise feita por Darcy Ribeiro das matrizes étnicas, a “mestiçagem” não parece ser uma forma de encobrir os conflitos raciais. Isso fica claro não só em O povo brasileiro como em outros textos e entrevistas que o autor concede. Vejam-se alguns fragmentos:

 

Foi desindianizando o índio, desafricanizando o negro, deseuropeizando o europeu e fundindo suas heranças culturais que nos fizemos.[5]

O filho da índia prenhada por um branco, quem era? Não era europeu nem indígena, era um ser que os jesuítas apelidaram de mameluco.[6]

Mas essa gente era ninguém, porque não sendo europeu nem índio, não era nada. O que eram eles? É eles tinham de sair dessa ‘ninguendade’ para procurar uma identidade, para inventar a sua própria identidade, que viria ser a brasileira.[7]

 

A identidade brasileira surge, assim, dessa ausência, desse vazio. A ausência é que impulsiona o questionamento da identidade. O texto de Mauricio Andion Arrutti [8] sobre O povo brasileiro é bastante esclarecedor nesse sentido, pois evidencia como Darcy Ribeiro se vale do mito das três raças não como forma de encobrimento, mas como maneira de invertê-lo. Nesse caso, a mestiçagem, vista sob esse ângulo, introduz uma perspectiva diferente daquela concepção de branqueamento.[9]

Ao elaborar uma teoria da cultura, as relações de poder não ficam fora dos escritos do autor. Essa questão, que aparece em O povo brasileiro, já está delineada em Teoria do Brasil. No texto de 1995, o autor destina um capítulo ao estudo da classe, cor e preconceito.

No enfoque das relações de poder, ao constatar a desigualdade social, sinaliza para a necessidade de a classe oprimida romper com “a estrutura de classes”, desfazendo a sociedade “para refazê-la”.[10]

Ainda em O povo brasileiro, no texto introdutório à abordagem de “Os Brasis na História”, pode-se depreender alguns aspectos que interessam, de perto, aos estudos interdisciplinares: a tensão entre o local e o global, a História genérica e a História que o povo recorda e a função do intelectual, do antropólogo que teoriza, concedendo ao povo uma explicação sobre si mesmo. Nesse contexto, o autor vê-se diante da necessidade de realizar uma teoria genérica, sabendo de antemão que “a história, na verdade das coisas, se passa nos quadros locais, como eventos que o povo recorda e a seu modo explica”.[11]

Minimizando esse descompasso, o autor compõe cenários regionais, desfazendo, de uma certa forma, da imagem de um Brasil com uma única face. Ao referir-se ao Brasil sulino, utiliza o termo heterogeneidade cultural, decorrente do processo migratório.

Em um trabalho recente sobre A Majestade do Xingu, de Moacyr Scliar, pude focalizar a identidade híbrida, resultante do processo de migração dos judeus para o sul do Brasil. Esse aspecto da migração, constatado no “Brasil sulino”, pode ser observado também na literatura do Canadá/Québec, como atesta Zilá Bernd.

A propósito desses textos, relacionados à migração, a ensaísta faz o seguinte comentário:

 

Essa escritura se deixa atravessar por várias línguas e linguagens. Ela inscreve segmentos culturais saídos de diferentes estatificações com alto grau de imprevisibilidade.[12]

 

A posição do antropólogo, diante da formulação teórica da cultura, remete-nos novamente ao texto de Renato Ortiz. Com base na linguagem gramsciana, atesta que o intelectual-filósofo “trabalha os elementos do folclore para integrá-los no sistema do conhecimento que Gramsci denomina filosofia”.[13] Nesse sentido, o “folclore, que se define como conhecimento fragmentado, passa dessa maneira a integrar um todo coerente ao ser mediado pela atividade intelectual”.[14] Assim, também, a identidade nacional sinaliza para os mediadores que são os intelectuais.

Darcy Ribeiro assume esse papel de intérprete, como se pode ver em O povo brasileiro. Essa perspectiva sobre o intelectual está traçada em “Consciência e revolução”, em Teoria do Brasil. O autor atesta a necessidade de uma consciência crítica capaz de ver “o papel da espoliação colonial e da exploração patronal como causais da perpetuação da miséria e da ignorância popular”.[15]

 

2. Deslocando enunciações, olhares e textos

Tomando A fundação do Brasil e O povo brasileiro como hipertextos “que permitem abertura para outros, em diferentes direções”,[16] percebe-se que os escritos de Darcy Ribeiro comunicam-se em rede. Ora o escritor é o teórico, o intérprete da cultura, ora é romancista. Mostra-se ainda como leitor de seus textos e como ouvinte de histórias narradas. Trechos de textos ficcionais são incorporados aos textos antropológicos.

Sem a pretensão de esgotar as possibilidades das redes textuais que se formam e sem portanto pensar em uma lógica causal, é possível traçar mapas de leituras. Assim, se, no livro A fundação do Brasil são selecionados textos que fundam um olhar utópico sobre nós, é em Utopia selvagem que o escritor traduz, de forma romanesca, essas utopias e sua própria utopia.

O esvaziamento identitário trazido pelo sentido de mestiçagem, na concepção do autor, se traduz em Maíra através da morte dos gêmeos. Também as questões étnicas ligadas às relações de poder aparecem em Maíra e em O Mulo. A atualização, no âmbito do conflito histórico entre católicos e protestantes no contexto da colonização/neocolonização, é revisitada em Maíra. A relação entre cultura letrada e cultura erudita representada, por exemplo, em O povo brasileiro, no capítulo “O enfrentamento dos mundos”, percorre vários romances do autor, destacando-se Maíra, Utopia selvagem e O Mulo. Nesses mesmos livros, o Brasil mostra-se de forma heterogênea. A questão da viagem, revisitada pelo olhar dos cronistas sobre nós em A fundação do Brasil, também está presente em toda a obra do escritor.

Através do entrelaçamento de textos, construído pelas reapropriações, pelos deslocamentos contextuais e por novas formas de realização do texto literário e antropológico, é possível perceber como a escrita sobre o Brasil é intrincada e complexa.

Na tensão entre o literato e o antropólogo, aparece Darcy Ribeiro desafiando o leitor, através da publicação de Diários índios (1996). Doando a “pedra bruta”, o leitor deve ficar livre para as interpretações. Através de Diários índios, é facultado a ele o acesso às múltiplas versões de mitos indígenas. É possível também o contato com a pajelança de Maria Rodrigues e com o sírio que tem que acaboclar. Trabalhadores negros no Pará; Jorge preto com  sotaque inglês e Chico Ourives (um Quixote de cor) são alguns outros tantos brasileiros apresentados ao leitor de Diários índios. Nesse quadro, ele se depara com o imaginário do Brasil que não está escrito nos livros de história oficial. Através de espaços, de pessoas e personagens, Darcy Ribeiro vai criando outros mapas justapostos àqueles que descreve e também desenha. A festa do círio; o Bumba-meu-boi, a coroação do Imperador são algumas festas revisitadas pelo escritor.

Nesse contexto, o antropólogo mostra sua face, a do humano, daquele que tem fome e sede. No enfoque dos índios, o ato de escrever, apesar de ser solitário, acaba sendo compartilhado e as diferenças entre o Brasil letrado e não-letrado encontram-se de maneira inusitada e singular.

Diários índios marca, na trajetória do escritor, um reencontro com o passado em um duplo sentido. O autor publica o livro quando já está com o segundo câncer. O texto remete a um momento, em que ele tem o vigor da juventude e viaja, em missão antropológica, entre 1949 e 195, às aldeias dos Urubus-kaapor.

Por que os Kaapor?

São eles que encarnam, “em nossos dias, os Tupinambá da costa atlântica quinhentista”[17]. É ainda o autor quem afirma em Confissões: “É claro que com quinhentos anos vividos e sofridos, eles, como nós, mudaram muito, mas guardam algo do seu ser original[18].

Através de Diários índios, Darcy Ribeiro vai em busca de sua história individual e coletiva. Aos olhos do leitor, ele se faz escritor e antropólogo, ouvindo e anotando histórias. Sob essa perspectiva, no fio da memória do Brasil, o autor vai ao encontro de sua própria memória.

Essa escrita múltipla em tantas direções, sob diferentes facetas, mostra-nos que é impossível ter uma visão de totalidade do Brasil. Darcy busca de forma incessante a nação que se escreve, em sua obra, através de vários  fios e movimentos interpretativos. Assim, tomando como base Diários índios e outros escritos do autor, poderíamos dizer que fundar o Brasil, para Darcy Ribeiro, corresponde à procura de sua própria história, de quando se tornou antropólogo e se fez escritor.

 

A contribuição crítica de Darcy Ribeiro

Sob a perspectiva teórica, Darcy Ribeiro aborda a questão da identidade relacionando-a à etnia, à classe e ao poder; dialoga com as fontes literárias eruditas e nacionais através dos seus escritos tanto antropológicos quanto ficcionais; oferece um painel múltiplo sobre o Brasil e aborda a utopia européia que nos construiu, propiciando a discussão desse aspecto no contexto tecnológico do século XX.

Estudando a recepção crítica de Darcy Ribeiro na América Latina, a partir do debate que os críticos da Current Anthropology realizaram, em torno da súmula de As Américas e a civilização e O processo civilizatório, constatei comentários elogiosos aos textos do antropólogo brasileiro. Dessas observações saliento o destaque dado aos textos do autor como fonte de reflexão sobre a história européia. Estendendo-se esse comentário ao livro O povo brasileiro e aos outros escritos sobre o Brasil, sob uma lógica outra de reflexão – do Brasil para outras culturas –, acredito que esses textos sirvam não apenas para a compreensão de nós mesmos mas para a elucidação de outras culturas e literaturas que vivenciaram o processo de colonização. Retraçando olhares sobre o Brasil, certamente poderemos escrever outros mapas de leituras interculturais.

 

Notas



1 Darcy RIBEIRO. Introdução. In: Darcy RIBEIRO e Carlos Araújo MOREIRA NETO. p.17

2 Idem, p.21.

[3] Uso o sentido de fundar com base em Paul ROBERT. CDRom. Le Petit Robert. Paris, Bruxelles, 1996.

[4] Renato ORTIZ. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, p.44.

[5] Darcy RIBEIRO.  O Brasil como problema. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. p. 13.

[6] Darcy RIBEIRO. Sobre a mestiçagem no Brasil. In: Lílian Moritz SCHWARCZ e Renato da Silva QUEIROZ (Org.). São Paulo: EDUSP, 1996. p.196.

[7] Idem, ibidem, p. 197.

[8] J. M. A. ARRUTTI A narrativa do fazimento ou por uma Antropologia Brasileira. Novos Estudos. CEBRAP, São Paulo, n.43, p.235-243, nov. 1995.

[9] Para a discussão desse aspecto, remeto ao texto de Zilá BERND. A literatura comparada e s literaturas periféricas. In: Reinaldo MARQUES e Gilda Neves BITTENCOURT. Limiares críticos. Belo Horizonte: Autêntica, 1998. Veja-se o trecho: “Foi, portanto, sob a bandeira da mestiçagem que se advogou a causa de uma América mestiça, desde que predominantemente branca, o que pode ser ilustrado pelas teorias de Gilberto Freyre, como a do branqueamento”. (p.43)

[10] Darcy RIBEIRO. O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.209.

[11] Idem, ibidem, p. 269.

[12] Zilá BERND. Identités composites: écritures hybrides. In: Bernard ANDRÈS et Zilá BERND. L’identitaire et le littéraire dans les Amériques. Editions Nota Bene, 1999. p.26. (Tradução minha.)

[13] Renato ORTIZ. Cultura brasileira e identidade nacional. Op. cit., p.140.

[14] Idem, ibidem, p. 140.

[15] Darcy RIBEIRO. Os brasileiros. Teoria do Brasil. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 1985. p.157.

[16] Vali-me das observações de Zilá Bernd. Veja-se Zilá BERND. Literatura Comparada e literaturas periféricas. In: Reinaldo MARQUES e Gilda Neves BITTENCOURT. Limiares críticos. Estudos de Literatura Comparada. Op. cit., p.41.

[17] Darcy RIBEIRO. Confissões. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

[18] Darcy RIBEIRO. Confissões. Op. cit., p.181.